
Votuporanga, domingo, 05 de fevereiro de 2012
Palavras-Chaves: Indústria, desconcentração, capital, território, comunicação
Introdução
A desconcentração industrial é um fenômeno mundial, que vem ocorrendo em escala global, nacional e regional. Trata-se de um processo que tende à nova lógica da organização industrial mundial.
Se a primeira grande linha de pensamento industrial surgida no século XIX, o Fordismo, prezava pela concentração espacial de todos os processos produtivos (verticalização) além da proximidade dos estabelecimentos industriais das fontes de matéria-prima e do mercado consumidor, a nova tendência organizacional, surgida no século XX e conhecida por Toyotismo, privilegia a desconcentração espacial das diferentes etapas de produção (horizontalização) e a não necessidade da proximidade dos recursos de matéria-prima ou do mercado consumidor, caracterizando assim um novo espaço industrial.
Esse espaço caracteriza-se pela capacidade organizacional e tecnológica de separar o processo produtivo em diferentes localizações ao mesmo tempo em que reintegra sua unidade por meio de conexões de telecomunicações. (CASTELLS, 2000, p.412).
Essa tendência foi uma adaptação do espaço industrial às novas realidades impostas pelo capitalismo moderno, que ao gerar uma economia globalizada, cria e recria espaços qualitativamente diferentes que por sua vez acabam se tornando atrativos ou não para a instalação de diferentes indústrias ou para determinadas etapas de produção de um produto dentro de uma mesma empresa. E o que vai permitir essa movimentação de empresas pelo globo é o desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação.
Dentro dessa lógica, o presente trabalho procura fazer uma análise do fenômeno da desconcentração industrial em escala mundial, nacional e estadual, sendo essa última voltada a estudar o processo dentro do Estado de São Paulo. Para tanto foi feito um estudo de caso em uma indústria metalúrgica que migrou sentido capital-interior e hoje está instalada no município de Urânia, localizado na porção noroeste do Estado, a 600Km da capital, com uma população de cerca de 8.000 habitantes e economia predominantemente rural.
O objetivo desse estudo de caso é analisar os motivos que culminaram na instalação dessa indústria em um município sem nenhuma experiência no ramo industrial, e tão pouco no ramo metalúrgico, justificando o processo da desconcentração industrial ocorrido dentro do estado de São Paulo, corroborando o estudo realizado por Milton Santos e Maria Laura Silveira na obra: “O Brasil – Território e sociedade no início do século XXI”. Para que os objetivos fossem atingidos efetivamente, foi feito um levantamento de dados sobre a indústria, e, com base nas informações obtidas, foram traçadas analogias entre a discussão teórica do tema e a aplicabilidade pragmática da mesma.
Por fim, dois são os motivos que justificam o presente trabalho. Primeiro, que apesar dos questionamentos da população uraniense, nunca foi realizado um estudo que considerasse os motivos que levaram essa indústria metalúrgica a se instalar no município. E segundo, que a análise empírica de um fenômeno global transferido para uma escala local, só comprova o pragmatismo da ciência geográfica, e a coloca em papel de destaque enquanto ciência capaz de fazer analogias entre a teoria e a realidade observada do cotidiano pesquisado.
1. O processo da desconcentração industrial
O conceito espaço dentro da discussão geográfica tem gerado ao longo da história inúmeros debates e obras importantes para o revigoramento e sustentação dessa ciência, uma vez que o dinamismo é, e sempre foi uma constante para a geografia. Porém, apesar de algumas divergências em torno desse conceito, ultimamente duas correlações têm sido constantes e unânimes: o encurtamento das distâncias promovido pelo desenvolvimento dos meios de comunicação, e a submissão do território ao capital.
Sobre a primeira correlação acima citada, que está associada ao desenvolvimento das tecnologias da comunicação, pode-se analisá-la como uma das condições essenciais que permitem a desconcentração do setor industrial. Já a segunda, que é a submissão do espaço pelo capital, é o que vai incentivar esse processo.
Portanto existem duas constantes modernas intimamente ligadas ao processo da desconcentração industrial, a primeira que permite e a segunda que incentiva. tal fenômeno.
1.1 O encurtamento das distâncias promovido pela evolução dos meios de comunicação.
Conforme a humanidade evolui a natureza torna-se cada vez menos um obstáculo a ser vencido. Tal processo fica evidente quando pensamos o quão trabalhoso era cruzar grandes distâncias, como atravessar o Oceano Atlântico, por exemplo. Hoje essa distancia é facilmente superada graças à evolução dos meios de comunicação e transporte.
Por isso, pode-se dizer que a evolução dos meios de comunicação acabou encurtando as distâncias, tornando a Terra cada vez menor, não no sentido literal, mas no sentido de que ficou muito mais fácil se comunicar e se deslocar pelo globo.
O espaço nesse contexto fica totalmente dinâmico; se antes o ritmo dessa dinâmica era menos acentuado, e por vezes até transmitia um caráter estático, agora as tecnologias dos meios de comunicação vão fazer com que ele se caracterize pela fluidez, criando assim um espaço de fluxos.
Nossa sociedade está construída em torno de fluxos: fluxos de capital, fluxos de informação, fluxos de alta tecnologia, fluxo de interação organizacional, fluxos de imagens, sons e símbolos. Fluxos não representam apenas um elemento da organização social: são a expressão dos processos que dominam nossa vida econômica, política e simbólica.(CASTELLS, 2000, p.436).
Nesse sentido a aparente desconexão espacial observada durante o processo de desconcentração industrial, é novamente conectada pelos meios de comunicação modernos, que proporcionam um dinamismo antes não observado na fluidez de capitais produtos e informações.
“Como produção e consumo estão cada vez mais distanciados espacialmente (condição histórica do desenvolvimento do capitalismo), o processo de produção deve criar formas de ligação entre eles, de modo a minimizar o tempo de duração no qual o produto se transfere de um para o outro”. ( FANI, 2001, pg 39)
Isso significa dizer que se, por exemplo, determinado país oferece vantagens para instalação de uma indústria em seu território, tais como mão-de-obra barata, isenção de impostos e uma menor rigidez no cumprimento de normas ambientais (questões essas relacionadas com a submissão do espaço pelo capital e que serão posteriormente discutidas), essa, mesmo não produzindo diretamente para atender a demanda desse país e/ou tendo que importar matéria prima, provavelmente acabaria se instalando ali. Isso ocorre porque o desenvolvimento dos meios de comunicação tornará esse negócio vantajoso, uma vez que os gastos com a importação de matéria-prima e exportação do produto final seriam menores do que os gastos com a mão-de-obra, impostos e adequações às normas ambientais realizados por essa indústria, se ela se fixasse próxima ao seu mercado consumidor sem as vantagens concedidas pelo primeiro país.
Além disso, a conexão mundial do sistema financeiro proporciona um fluxo de capital jamais observado, descartando a necessidade da proximidade dos grandes centros como condição para a efetuação de transação de capitais. E por fim, o advento da internet foi um dos mecanismos do processo da globalização que dinamizou de forma acentuada o processo de circulação de informações.
Portanto, o espaço se configura agora dentro de uma rede de comunicações:
“A articulação espacial das funções dominantes ocorre em nossas sociedades na rede de interações, possibilitadas pelos equipamentos de tecnologia da informação. Nessa rede, nenhum lugar existe por si mesmo, já que as posições são definidas por fluxos. Conseqüentemente, a rede de comunicação é a configuração espacial fundamental: os lugares não desaparecem, mas sua lógica e seu significado são absorvidos pela rede”. (CASTELLS, 2000, p. 437).
Assim, cada lugar só vai existir efetivamente no plano econômico se for parte integrante da rede de fluxos, e a atividade industrial, se aproveitando e se adaptando á essa nova rede de fluxos, se desconcentra, e procura agora os espaços mais vantajosos para se instalar, precisando, esse novo espaço, acima de tudo, ser integrado a rede de fluxos constituída.
Essa é uma constante dentro do modo de produção capitalista que incentiva o processo de desconcentração industrial. Esse processo, dentro dessa lógica, ocorre sempre no sentido de um local central, com know-how no ramo industrial, para um local mais periférico e que apresenta alguma potencialidade dentro dessa nova lógica produtiva. Concomitantemente ocorre no sentido de um espaço industrial mais antigo e conseqüentemente mais forte economicamente, para um local com pouca experiência industrial e com uma economia geralmente não desenvolvida. Então qual o interesse das industrias de estarem migrando para esses locais, e qual o interesse desses locais em estarem recebendo essas indústrias?
1.2.1 O interesse das indústrias.
A industrialização moderna distingue-se por algumas características básicas. Além do elevado nível de automação e transformação dos recursos naturais, e do uso de tecnologias de ponta, a maximização dos lucros também é uma constante. Para atender essa última característica, ocorre uma intensa movimentação industrial pelo espaço globalizado, uma vez que esse não se apresenta homogeneizado, apresentado lugares, onde esse lucro pode ser maximizado mais facilmente do que outros.
“Desse ponto de vista, cada lugar, como cada região, deve der considerado um verdadeiro tecido no qual as condições locais de infra-estrutura, recursos humanos, fiscalidade, organização sindical, força reivindicatória afastam ou atraem atividades em dado momento”. (SANTOS e SILVEIRA, 2005, p. 297).
Por trás de toda movimentação industrial estão as diferentes vantagens oferecidas pelos lugares, que acabam por atribuir-lhes valores também diferentes, criando espaços desiguais em alguns casos, ou homogeneizando a economia de uma região ou país em outros.
“(...) do ponto de vista das empresas, o mais importante é a guerra que elas empreendem para fazer com que os lugares, isto é, os pontos onde desejam instalar-se ou permanecer, apresentem um conjunto de circunstâncias vantajosas do seu ponto de vista. Trata-se, na verdade, de uma busca de lugares produtivos”. ( SANTOS e SILVEIRA, 2005, p.296 ).
Esse processo se configura pelo domínio econômico do território e pela perda da identidade deste, ou seja, os valores regionais e históricos de um território acabam ficando em segundo plano. O que importa no novo contexto global é seu valor econômico, seu potencial lucrativo, que é condicionado por uma série de fatores legais, sociais e econômicos associados ao território.
Dentre esses fatores podemos citar:
§ Flexibilidade nas normas de adequação ambiental:
A preocupação mundial crescente frente às questões ambientais, levou diversos países a criarem leis e regras ambientais mais rígidas nos últimos anos. A adequação a essas normas é um processo caro e demorado, que sem dúvida não permite que as indústrias maximizem seus lucros de forma efetiva, e o não cumprimento dessas culmina em severas penas revertidas em multas ou até no fechamento da empresa.
Em contra partida, existem países ou regiões que flexibilizam essas normas com o intuito de atrair indústrias para o seu território e dinamizar sua economia. Porém as conseqüências dessas atitudes são por vezes catastróficas, o meio ambiente acaba sendo degradado em troca de uma maior lucratividade e desenvolvimento econômico.
§ Mão-de-obra barata:
A fabricação de determinados produtos, ou diferentes etapas de produção de um produto, não exigem mão-de-obra qualificada. Países ou regiões mais pobres geralmente oferecem um grande contingente de mão-de-obra desqualificada e desempregada que não exigem o pagamento de altos salários. São esses os alvos preferidos de indústrias de montagem, por exemplo, que não exigem nenhuma especialização por parte de seus funcionários, e buscam maximizar seus lucros através do pagamento de baixos salários.
§ Fraca organização sindical:
Quanto mais antiga as atividades industriais em determinado país e região, maior será a organização da sua força de trabalho em torno de sindicatos que garantem saudáveis relações de trabalho. Dentre as principais ações sindicais estão a exigência do pagamento de salário base, cumprimento de jornada de trabalho de oito horas, férias remuneradas, FGTS e 13º salário. O cumprimento de todas as exigências sindicais acaba tornando-se oneroso às empresas, que no intuito de maximizar seus lucros, acabam preferindo se instalar em lugares de industrialização recente onde não há uma intensa atividade sindical.
§ Integração do local a uma rede de comunicação satisfatória
O que permite a desconcentração industrial é justamente a veloz conexão não necessariamente espacial que os meios de comunicação modernos proporcionam. Entre esses meios, podemos citar como um dos mais importantes as redes de transportes estabelecidas.
Uma rede de transportes densa favorece uma maior fluidez de pessoas, capitais e mercadorias, e por isso acaba sendo requisito indispensável para uma possível instalação industrial.
Espaços fragmentados, que não mantêm qualquer ligação direta com uma rede de transportes mais densa, acabam tornado-se espaços alheios ao crescimento econômico e ao desenvolvimento social de seu entorno.
§ Isenção de impostos:
Isentar os estabelecimentos industriais do pagamento de impostos é uma das práticas mais comumente adotada por alguns países, estados ou municípios para atrair esse tipo de atividades para o seu território.
O não pagamento de taxas para ocupação do solo, para produzir determinado gênero ou para exportar e importar são vantagens para o empresário que visa maximizar seus lucros.
Esse mecanismo de atração industrial acaba gerando uma verdadeira “guerra fiscal” entre os lugares, ou seja, cada local pretende se tornar mais atrativo para a instalação de espaços industriais em seu território, e para tanto em alguns momentos acabam gerando verdadeiros conflitos.
As mudanças de localização de atividades industriais são às vezes precedidas de uma acirrada competição entre Estados e municípios pela instalação de novas fábricas e, mesmo pela transferência das já existentes. (SANTOS e SILVEIRA, 2005, p. 112).
Percebe-se que esses são fatores atrativos e que permitiriam uma maximização dos lucros das empresas, percebe-se ainda que esses são fatores associados geralmente a espaços industriais novos que estão interessados a atrair empresas em contra partida aos espaços industriais antigos que além de não oferecerem essas vantagens, acabam por se tornar espaços industriais saturados e emigratórios.
1.2.2 O interesse dos lugares
O espaço econômico mundial se desenvolve de forma heterogênea, de acordo com o interesse das empresas.
As empresas mais poderosas escolhem os pontos que consideram instrumentais para a sua existência produtiva. É uma modalidade de exercício de seu poder. O resto do território torna-se, então, o espaço deixado às empresas menos poderosas. Os primeiros seriam, do ponto de vista da produtividade, da competitividade, “espaços luminosos”, enquanto o resto do território chamar-se-ia “espaços opacos”. (SANTOS e SILVEIRA, 2005, p.294).
Sem esse valor econômico, sem esses atrativos, esses “espaços opacos” acabam ficando alheios à economia do país, tornando-se espaços fragmentados e descontínuos dentro da rede de relações estabelecida. Como conseqüência desse isolamento, o território irá apresentar problemas sociais decorrentes do atraso econômico.
Esse atraso ou desenvolvimento econômico está diretamente associado com as conseqüências que o desenvolvimento do setor secundário trás para uma região, tais como a diminuição do desemprego e o aumento relativo do poder aquisitivo da população. Mas também podemos observar impactos indiretos, como o desenvolvimento do setor terciário, ligado ao comércio e serviços.
Portanto quanto menos integrada estiver uma porção do território, e menos vantagens essa oferecer para o estabelecimento de atividades econômicas, mais atrasada ela será, e conseqüentemente encontrará mais dificuldades de adaptação ao mundo globalizado.
Assim, o progresso ou retrocesso de um dado lugar está diretamente relacionado à atuação do capital em seu território.
1.3 O processo dentro do estado de São Paulo
Entre 1970 e 1990, observou-se dentro do estado de São Paulo, um intenso processo de desconcentração industrial. Durante esse período ocorreu ao mesmo tempo uma diminuição dos números de estabelecimentos e do valor da transformação industrial na região metropolitana, e um aumento desses índices no interior. Segundo Santos e Silveira, enquanto em 1970 a Região Metropolitana reunia 36,09%, o município de São Paulo 28,94% e o interior apenas 6,95% do total de estabelecimentos industriais, duas décadas mais tarde as participações respectivas eram de 21,95%, 9,23% e 15,26%.
A observação desses dados nos permite fazer uma análise importante. Observa-se que além de uma desconcentração dentro do estado (sentido capital-interior) houve também uma desconcentração em âmbito nacional, pois se em 1970 o estado de São Paulo concentrava mais de 70% dos estabelecimentos industriais do país, esse número cairia para menos de 45% em 1990. Isso demonstra que o interior de São Paulo e outros estados brasileiros também passaram a oferecer vantagens econômicas e conseqüentemente a competir com a primeira região concentrada do país. Segundo Santos e Silveira (2004, p.103) “a região concentrada é por definição, uma área onde o espaço é fluido, podendo os diversos fatores de produção deslocar-se de um ponto a outro sem perda da eficiência da economia dominante”.São Paulo é considerada a primeira região concentrada do país justamente por num primeiro momento ser a única porção do território capaz de oferecer condições para que o capital se reproduzisse de forma eficiente.
Com o alargamento do meio técnico-científico para outras regiões brasileiras a partir da década de 1970, essas também passaram a oferecer condições para a reprodução do capital, e foi justamente para essas áreas que migraram as indústrias paulistanas ou se instalaram a grande parte dos novos estabelecimentos industriais. Porém, como já foi discutido inicialmente, o desenvolvimento dos meios de comunicação, ou meio técnico-científico, permite o deslocamento industrial para uma região, mas existem outros fatores que irão incentivar esse processo. Sobre a combinação desses fatores, especificamente dentro do estado de São Paulo podemos observar a atuação do Estado em nível municipal.
“A nível de governo local muitos municípios interioranos passaram a oferecer uma série de incentivos visando atrair indústrias. Um grande números de prefeituras elaborou diretrizes para atrair estabelecimentos industriais para seus municípios. Esses esforços, conhecidos como “Políticas de Atração industrial”, em grande parte ofereciam isenção de impostos e taxas municipais, ressarcimento de gastos com infra-estrutura, terrenos...” (SANTOS, SOUZA e SILVEIRA, 2002, pg 201)
E é dentro desse contexto que segue o estudo de caso em questão.
2. A desconcentração industrial assistida no Estado de São Paulo: O caso da Alpha Metalúrgica
Dentro do contexto de desconcentração industrial até então descrito, percebe-se que o Estado de São Paulo é o que melhor retrata esse processo em território nacional. Assim sendo, o presente artigo, com o intuito de justificar o processo teórico acima descrito, descreve o caso específico de uma metalúrgica paulistana que decidiu deslocar parte da produção para o interior do Estado, dadas algumas das condições favoráveis á expansão do capital e maximização dos lucros discutidas durante o embasamento teórico do artigo.
A indústria em questão atua no município de Urânia desde 2000, gerando atualmente 230 empregos diretos.
Localiza-se às margens da estrada vicinal “Transchico” no quilômetro 3. Essa estrada é uma das mais importantes vias de acesso do município à rodovia Euclides da Cunha, que por sua vez consiste na principal via de comunicação entre a região e a capital do Estado a Sudoeste, e Mato Grosso do Sul e Minas Gerais a Norte e Nordeste.
Empresa de capital nacional, tem sua produção praticamente toda voltada para a fabricação de assentos automotivos de caminhões.
A Alpha Metalúrgica trata-se de uma filial, sendo que sua matriz, de nome Tristar, se localiza em Diadema, região Metropolitana de São Paulo. A Tristar, fundada em 1995 funciona como empresa terceirizada na produção dos bancos utilizados por grandes montadoras, como a Volvo, por exemplo. Esse papel é intermediado por sua vez por uma segunda empresa, a Isrinhausen, empresa alemã que se responsabiliza em fazer os pedidos para a Tristar, estofar e repassar os bancos prontos para as montadoras.
Atualmente, com a instalação da Alpha Metalúrgica, esse processo produtivo foi ainda mais dividido. Agora a produção de toda a estrutura metálica do banco é produzida pela filial uraniense, a matriz metropolitana fica encarregada pela pintura e embalagem do banco, enquanto a alemã Isrinhausen continua responsável pelo estofamento e repasse do produto final para as montadoras.
Percebe-se então que todo o processo metalúrgico foi deslocado para o interior do Estado, a capital agora concentra etapas da produção que requisita menos mão-de-obra e matéria-prima. Os princípios desse deslocamento se justificam pelo processo de desconcentração industrial citado durante o marco teórico do presente artigo.
Nesse caso específico, os principais fatores que levaram a empresa a dividir sua linha produtiva se resumem à flexibilidade sindical e a concessão do terreno.
O movimento sindical metalúrgico praticado na metrópole paulista é muito mais forte e articulado que a incipiente organização sindical do interior. O reflexo direto dessa diferença é o piso salarial da categoria, que é maior na capital devido à pressão sindical. Nesse sentido, a capital se torna uma área repulsora para certas atividades (como a metalurgia por exemplo), enquanto o interior acaba por atrair esse tipo de atividade.
Em relação a essa questão, constatou-se que, no início das operações os funcionários foram vinculados ao sindicato da categoria, tendo como sede mais próxima, o município de Jales, localizado a 10 km de Urânia; esse vínculo foi desfeito em 2006, por uma sugestão da própria empresa. Em entrevista com os funcionários, esses disseram que acataram a sugestão administrativa em decorrência dos poucos benefícios concedidos frente a alta taxa descontada diretamente em folha. Dessa forma, a desvinculação com o sindicato constitui-se um benefício tanto para a empresa, que adquiriu uma maior autonomia sobre as políticas trabalhistas (regidas agora apenas pela CLT, sem nenhum órgão intermediário), quanto para os trabalhadores, que se viram livres de uma taxa que lhe não proporcionavam nenhum benefício.
Em relação à concessão do terreno, esse fator também se torna uma vantagem bastante atrativa. Nesse sentido, a prefeitura municipal de Urânia colaborou muito com a instalação da Alpha Metalúrgica em seu município, doando o local onde atualmente está situada a empresa. Trata-se de um terreno de 37500mª que apesar de se localizar na zona urbana do município, ocupa uma área pouco povoada, prevalecendo uma paisagem rural. Os gastos com a infra-estrutura básica como água, esgoto e energia elétrica, também foram todos arcados pelo município.
É importante lembrar que os dois motivos acima citados funcionam como possibilitadores de expansão do capital e maximização dos lucros, que é o cerne de toda essa movimentação.
Logicamente existem fatores negativos que resultam desse processo de deslocamento da etapa metalúrgica da produção do produto, como a logística por exemplo, pois se a produção toda continuasse sendo feita na Tristar, em Diadema, o custo com o transporte do produto seria largamente reduzido, uma vez que a destinatária Isrinhausen também se localiza em Diadema, a poucos quilômetros da Tristar.
Esse fator negativo é em partes reduzido, dada as boas condições das rodovias que ligam a Alpha Metalúrgica à região metropolitana de São Paulo (trajeto percorrido pelo produto final, a estrutura dos assentos automotivos) e da rodovia que liga a empresa ao seu principal fornecedor, a Usiminas (trajeto percorrido pela matéria-prima).
Outro fator negativo decorrente desse processo é o custo com treinamento da mão-de-obra. Essa se apresenta mais qualificada na capital que no interior. Tal fato se justifica pelo know-how da metrópole no ramo metalúrgico e pelo adensamento dessa atividade na região, dessa forma a empresa acaba tendo gastos para treinar a mão-de-obra inexperiente. Esse treinamento é feito tanto no interior na empresa, por profissionais contratados ou funcionários mais experientes da própria Alpha, quanto externamente, em treinamentos ministrados na matriz Tristar ou em empresas terceirizadas.
A flexibilidade em relação às leis ambientais por vezes pode constituir um fator de atração para a atividade industrial, mas no caso em estudo esse não pode ser considerado, pois a empresa não comete nenhuma infração aparente frente ao código ambiental, uma vez que trata toda água usada durante o processo da preparação das peças para a pintura antes de descartá-la. Essa seria a única atividade com potencial impactante. O sistema de tratamento foi adquirido pela empresa junto ao sistema de preparação das peças.
O movimento industrial culminou então quando os fatores positivos superaram os fatores negativos, ou seja, a atração venceu a repulsão e o deslocamento efetivou-se, focalizando, durante todo o período que antecedeu tal movimentação, a maximização dos lucros.
Após quase oito anos de funcionamento, terminado o processo de movimentação, pode-se observar que o deslocamento foi vantajoso tanto para a empresa quanto para o município.
Em relação à empresa, as metas de maximização dos lucros foram atingidas. Hoje a Alpha produz duas vezes mais que a Tristar produzia antes da divisão das etapas da produção. Aumentada a capacidade produtiva, aumentam os números de contratos com a alemã Isrinhausen, e conseqüentemente, o capital interno da empresa.
Para o município, os benefícios diretos e indiretos proporcionados com a instalação da Alpha Metalúrgica são inegáveis, a começar com a geração de empregos. A Alpha sozinha emprega cerca de 6% da população economicamente ativa do município, um número bastante significativo, considerando que a origem desse número é do setor secundário, e a economia do município toda gira em torna da agropecuária (setor primário) e do comércio (setor terciário). Esses empregos constituem um forte incremento para a economia do município, uma vez que Urânia tem sofrido nos últimos anos um forte movimento emigratório, motivado exatamente pela falta de emprego.
Outro fator positivo são as ações sociais promovidas pela empresa no município. A principal ação nesse sentido é a ajuda permanente que a empresa oferece à escola municipal de Urânia. Tal escola oferece a primeira etapa do ensino básico (1ª a 4ª série) e se localiza na zona mais carente do município e é justamente ali que reside a maioria dos funcionários da empresa. A ajuda é financeira e feita de forma voluntária. Na maioria das vezes esses recursos são utilizados para reformas, ampliações ou melhoras estruturais no prédio onde funciona a escola.
Uma outra melhoria que foi conseqüência da instalação da Alpha Metalúrgica pode ser desfrutada por todos os moradores do município. Como citado no início desse capítulo, a Alpha Metalúrgica está instalada numa estrada vicinal, a Transchico, e essa sempre foi utilizada pelos moradores como trajeto de caminhada, porém nunca contou com um sistema de iluminação. Essa realidade mudou com a chegada da empresa. Atendendo a um pedido dessa, a prefeitura agilizou o processo (que já era uma antiga reivindicação dos moradores), e hoje o trajeto foi iluminado.
Por fim, percebe-se que esse processo de movimentação industrial trouxe benefícios tanto para o município quanto para a empresa, e caracteriza o processo de desconcentração industrial, pois ocorreu a migração de uma etapa da produção que antes era exercida na região metropolitana de São Paulo (que se configura como uma região concentrada) para o interior do Estado, uma região não concentrada.
3.Considerações Finais
Percebe-se portanto que o processo de desconcentração industrial acontece em diferentes escalas. Observa-se o movimento de empresas em dimensão global, quando essas se deslocam por países, em dimensão nacional, quando o deslocamento é feito entre estados de um mesmo país, e em dimensão estadual, como o caso estudado.
Independentemente da escala estudada, o processo sempre vai seguir alguns padrões elementares, como a busca incessante pela expansão do capital e pela maximização dos lucros por parte das empresas, e a luta dos lugares em se manterem ativos e de certa forma representativos dentro do mundo capitalista globalizado em que estão inseridos.
De certa forma, o modo de produção capitalista é o responsável direto por esse processo, pois ele só existe enquanto houver movimento, e esse movimento é necessariamente ascendente, sempre expansivo, condicionando, entre outras coisas, a própria reprodução do espaço. Segundo Fani (2001, pg 35) “A produção espacial realiza-se de modo a viabilizar o processo de reprodução do capital”. Dentro dessa lógica, o espaço se submete a transformações de influencia totalmente externas para permitir a reprodução do capital, e dessa forma se encaixar efetivamente dentro do contexto capitalista que o cerca. Essa submissão do espaço para permitir a reprodução do capital pode ser entendida por exemplo como a concessão do terreno por parte da prefeitura de Urânia para atrair a instalação da Alpha Metalúrgica para seu município, e dessa forma incrementar economicamente o município.
O presente artigo descreve um processo amplo que ainda pode ser aprofundado em diversos pontos, como o detalhamento dos dados referentes ao incremento da produção da empresa decorrente do processo de deslocamento. Esses dados não estão contidos no presente trabalho devido ao enfoque geográfico do mesmo, e da falta de colaboração da fonte pesquisada.
Por fim, pode-se entender o processo de desconcentração industrial como um processo contínuo, mundial e fomentado pelo modo de produção capitalista, que só existe enquanto existem territórios que permitem uma reprodução diferenciada do capital.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. 3ª ed. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2000
SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: Território e Sociedade no início do século XXI ,7ª ed. São Paulo – Rio de Janeiro: Editora Record, 2005.
SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia A. de Souza; SILVEIRA, Maria Laura. Território Globalização e Fragmentação, 5ª ed. São Paulo: Editora Hucitec, 2002
CARLOS, Ana Fani A. Espaço e Indústria – A Geografia e a cidade. A Indústria e a Urbanização. A Metropolização e o Espaço Transnacional.9ª ed.São Paulo: Editora Contexto, 2001
SABÓIA, João. Descentralização industrial no Brasil na década de noventa: um processo dinâmico e diferenciado regionalmente. Nova Economia – Revista do Departamento de Ciências Econômicas da UFMG; artigo on-line: http//www.face.ufmg.br/novaeconomia/sum&aac