
Votuporanga, quinta-feira, 29 de julho de 2010
Nas últimas duas décadas, a Psicologia propôs um amplo debate em torno das políticas públicas de saúde mental. Particularmente o Movimento Antimanicomial se destaca como ação política engajada e comprometida com transformação na esfera da saúde pautada, eminentemente, num paradigma interdisciplinar que passou a reformular as noções sobre a loucura.
A loucura no período medieval era representada socialmente como um problema espiritual, uma possessão demoníaca que demandava rituais religiosos para purificação da alma. O sujeito considerado “insano” ou “lunático” era excluído da sociedade e isolado tal como um “leproso”, sendo assim, era flagelado, acorrentado, escorraçado, pois, em tese, era “possuído pelo demônio”. No fim da Idade Média, indivíduos com comportamento “desviante”, foram perseguidos, julgados e queimados vivos seguindo princípios da Santa Inquisição.
Ao retornarmos na era clássica, período do apogeu Grego, encontramos uma noção distinta em que o louco era representado como sujeito especial devido sua suposta relação com os deuses do Olímpo.
A medicina moderna institucionalizou a loucura como uma patologia de origem biológica no sistema nervoso. Diante disso, surge uma linguagem adotada no cotidiano que situa o transtorno mental como uma doença dos nervos. É comum essa noção biológica associada aos transtornos mentais no vocabulário do dia-a-dia quando, por exemplo, afirmamos que um sujeito tem “miolo mole”, “sangue quente”, “problema na cabeça”, “nervos a flor da pele” ou “falta um parafuso na cabeça”.
Ao longo da história da loucura, muitas formas de tratamento foram adotadas, tais como uso de sanguessugas, hipnose ou choque eletro-convulsivo. Atualmente, é comum o tratamento desumano em instituições de saúde mental, por exemplo, na ausência de cuidados higiene, bem estar coletivo ou estrutura dos prédios, com destaque para indicação desproporcional de medicados hipnótico-sedativos ou anti-psicóticos.
Em 1987 surge, no cenário nacional, o Movimento de Luta Antimanicomial propondo novas alternativas terapêuticas ao indivíduo com transtornos mentais. O início desde movimento foi amplamente divulgado na imprensa e teve um papel fundamental ao trazer à tona muitas histórias e imagens da barbárie que acontecia nos antigos hospícios. Com efeito, este movimento está historicamente ligado à defesa dos direitos humanos, como também incentiva a militância política e social contra a violência institucional praticada nos espaços manicomiais.
A proposta não é apenas tirar o indivíduo do manicômio, soltá-lo nas ruas ou devolvê-lo para sua casa. É necessária uma ampla estrutura de suporte para permitir a integração progressiva do individuo a sociedade e à família, bem como um tratamento psiquiátrico desprovido de doses abusivas de medicamentos. Segundo Marilene Proença, presidente do atual Conselho Regional de Psicologia – SP, o grande desafio da Psicologia é tornar efetivo um tratamento da doença mental embasado numa intervenção humanitária, capaz de resgatar a cidadania e a inserção social de uma população historicamente excluída. Um tratamento que não se limite a prescrição indiscriminada de psicotrópicos, mas que tenha como objetivo o bem-estar físico e psicológico do indivíduo.
Alexandre da Silva de Paula
Psicólogo, Mestre em Psicologia Social - USP
Professor da Unifev - Curso de Psicologia